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Segunda-feira, 25/04/1921

  • Foto do escritor: Cristiane d'Avila
    Cristiane d'Avila
  • 18 de jun. de 2020
  • 3 min de leitura

Coluna Bilhete


Transcrição


A X. Português. – Meu caro amigo. Recebi a sua carta tão afetuosa. E, depois de lê-la, tive o desejo de responder em letra impressa, ao menos pelo prazer de repetir coisas já ditas.

Você nota o disparate em curso por alguns malandros que me dão a honra da sua inimizade, de ser este jornal mantido pela colônia portuguesa.

A perversidade estúpida e sem resultado dos jacobinos disfarçados tem dois aspectos sinistramente ridículos.

O primeiro é o sonante, o do dinheiro. Colônia portuguesa que possa manter parece-me que só pode ser um grupo limitado de homens ricos, cheios de negócios, porque a maioria trabalha e é pobre. Mas que interesse teria um sujeito cheio de negócios em manter um jornal que não é oficial, amigo dos governos?

Ora, uma das minhas ideias (ideia que me tem custado não poucas agressões) é a de não ser possível considerar no Brasil os portugueses estrangeiros como os outros, e até agora só me tenho batido pelo passado português quando o atacam e pelos pobres que precisam de uma voz amiga a seu lado. Defendo os meus irmãos, os portugueses – mas não defendo nenhum interesse de português rico com esta ou com aquela repartição brasileira. Um milionário, seja de que nação for, tem sempre defensores. Eu seria desnecessário.

Para prova disso apontem-me qualquer ato de um rico, seja português, seja brasileiro ou italiano, e eu di-lo-ei neste jornal desde que o considere prejudicial aos interesses brasileiros.

Por mais que pareça impossível nesta época de cavações[COB1] , faço sem espalhafato um jornal independente e honesto.

O segundo aspecto é o moral. No dia em que eu estivesse mantido para defender os operários contra os geminianos ou os poveiros contra a urgência vexatória com que os forçaram a se nacionalizar – que valor teriam os meus artigos, quantas pessoas os leriam? Podem os miseráveis e incansavelmente reles invejosos pintarem-me com horrores. Cada vez mais os – que não têm despeito sentem que eu posso errar mas sempre sinceramente movido pela generosidade e pelo coração – que aliás começou a adoecer...

Daí a inocuidade dessa campanha absurda que quer reduzir um nobre amor à baixeza de um aluguel. Eles, os canalhas, são tão indignos que acreditam haver dinheiro capaz de pagar um homem que deixa os seus interesses, traz as suas nobres economias, corta com as amizades do poder, sacrifica tranquilidade e saúde, para vir à rua gritar em nome do Brasil o protesto contra a fúria energúmena dos jacobinos.

Não há dinheiros para pagar tais coisas, meu amigo, e cidadãos assim não podem ser mantidos nem explorar ninguém.

O que fiz com os poveiros fazia-o anos antes quando havia necessidade dos homens sem defesa e ninguém me pagava para tal, como insinuam diariamente os jornalões ilegíveis dos profissionais da cavação. O que tenho feito continuarei a fazer, custe o que custar, estando por patriotismo brasileiro ao lado dos nossos irmãos portugueses sempre que os atacarem, protestando contra as violências jacobinas sempre que elas surgirem.

Este jornal foi fundado para marcar o programa do novo Brasil. Nesse programa há o desejo da maior amizade luso-brasileira. Aparecemos não num período de simpatia por tal ideia, mas de exacerbação jacobina do Sr. Epitácio.

Com todas as misérias e insultos que nos atiraram – estamos, entretanto, assaz contentes com a força do nosso protesto, que realizou a reação operária contra o abuso do seu nome pelo jacobinismo, fez a intelectualidade do clero brasileiro obrigar a cessarem também a exploração do seu nome pelo nacionalismo, trouxe a espontânea simpatia de todas as classes aos portugueses.

Eu estou contente, caro amigo. Todos voltarão à razão. Como tenho repetido há meses, se as coisas forem assim, antes do Centenário não haverá mais o tal nacionalismo, cuja história de violência, insânia e insulto foi escrita semanalmente pelos infectos jornalecos da grey agonizante. Apenas ficará o incansável ódio contra mim. Quando cessar o jacobinismo só não cessará a fúria dos confrades. E aí então eu serei acusado de outra qualquer coisa absurda – para lavar o peito desses párias da inteligência e da dignidade.


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/cava%C3%A7%C3%A3o

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