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Terça-feira, 17/05/1921

  • Foto do escritor: Cristiane d'Avila
    Cristiane d'Avila
  • 5 de jun. de 2020
  • 2 min de leitura

Coluna Bilhete


Transcrição


Professor Dias de Barros. Nesta – Leio, Sr. Professor, com um certo espanto, a notícia de uma conferência sua que se realizou no Gabinete Português, sobre o tema “Alguns aspectos da influência do pensamento português no Brasil”. E o espanto é apenas aquele que resulta da ignorância. Desde que li a notícia, recorro ao meu fraco entender e não encontro, mas absolutamente não encontro, influência alguma do pensamento português no Brasil. Ao contrário. O tema da sua conferência fez-me pensar o quanto, no século da nossa independência, Portugal e Brasil se desnacionalizaram, abdicando sempre da autonomia de pensar por conta própria para pensar à maneira da França, à maneira da Alemanha, à maneira da moda, enfim...

Nós não temos uma literatura pessoal. Cada poeta, romancista ou conteur[COB1] mostra a influência de correntes e escolas estrangeiras. Mas se os poetas, os cronistas, os romancistas, o conteur são de talento dependente de feições estrangeiras – estes podem ser ingleses, alemães, franceses. Portugueses é que não.

Na literatura brasileira duas únicas influências de portugueses são patentes: a de Eça de Queiroz e a de Antonio Nobre. Ambos são estrangeiros em Portugal, espíritos de percepção estrangeira, analisando ou cantando coisas do seu país.

V. Exa., Sr. Professor, fez uma conferência sobre influências inexistentes quando o grito de alarme em Portugal como no Brasil seria contra a influência de estrangeiros, contra a cada vez maior falta de autonomia dos chefes pensantes, quer em Portugal quer no Brasil.

Sinto uma grande vontade de rir quando vejo os jacobinos (com a incontinência do disparate que lhes é característica) bradar contra o modo por que os portugueses dominam no teatro, na literatura, em tudo. Mas, Senhor Deus! Basta ver os jornais portugueses, bastar ler os romances e os livros de versos – para ter a certeza de que Portugal há um século segue as influências estrangeiras e que nós só fazemos exatamente o mesmo, seguimos os outros, sem fazer nosso como devíamos.

Até o prurido jacobino é cópia, e até essa minha ideia de aproximação da nacionalidade também é cópia. O Brasil espera os outros e só não copia Portugal.

Se Portugal não influiu na literatura teria influído na ciência, na política, nas artes plásticas? Eu creio que quanto à política, a república portuguesa feita por maioria de brasileiros natos é mais uma indireta resultante do nosso 89 que o governo de Epitácio do governo de Antonio José.

Em todo caso, meu caro professor, enquanto não me convencer com a sua conferência eu continuo a pensar que o maior mal nosso – de Portugal e do Brasil – é ficar à beira da praia à espera da moda estrangeira. Nós não nos influímos mutuamente: nós, no Tejo ou na Guanabara, aguardamos o transatlântico, para copiar o francês, que é o refazedor universal das ideias alheias com rótulo latino. E daí a nossa miséria de acharmos tudo quanto é nosso, desde a raça até a casa, pior que o estrangeiro: daí o vício obsceno do autodesdém que faz os céticos, cria os desiludidos e tanto prejudica Portugal e tanto prejudica o Brasil.


João do Rio


[COB1]contista

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